Arte

AVE VIDA




Poesia | Fotografia | Performance

 


 O CORPO DO VERBO

Qual porta é a porta
que o poema decide adentrar?

Que história é a história
que meu verbo quer contar?

Costuro lembranças, incorporo sentenças,
mesclo memórias, projeto projeções.

E tu, o outro, com que narrativas tu crias
as falas do teu ser star?

Misturamos matérias: poemas, cartas, notícias,
roteiros, ficções, relatos…

Cheios de intenções, proferimos tranqueiras líricas pelos ares,
tudo para expurgar do peito aquilo que nos toca a alma…

Nós, seres culturais,
no mar do tempo nos entrelaçamos em redes,
colorimos com palavras o corpo do verbo.


PARÊNTESES

Quantos parênteses são os que se abrem ao vento,
quando ele sopra,
na profunda amplidão do tempo-espaço?
Quantos cafés, sorrisos e afagos?
Quantos domingos, amigos e eventos?
Tias, sobrinhos, bares e bibliotecas!?
Quantas palavras gravadas em guardanapos?
Quantas perdidas no espaço, feito fumaça?
Tudo se sucede. Desde o Big Bang até o Big Bang.
Tudo se repete. Mas as formas – recombinadas –
levam a vida ao infinito, num labirinto
de êxtase, luta, amor, calafrio e beleza.

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A MENINA

A menina tinha pássaros na cabeça
e tinha gatos, panteras, poesia.
A menina tinha chuva na voz,
e raios e trovões e sol e melodia.
A menina sabia que podia
transformar o tédio em alegria.
Ela sabia que sabia
dizer sim à imensidão.

foto de Ze Paiva, Vista Imagens.


 AMAR

Amar raízes e bancos.
Amar balanços e praças.
Amar a arte do humano;
tudo o que é geometria
e tudo o que se esparrama.
Amar também as sombras.

Louvar todo e cada ato de amor.

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PÉ-DE-POESIA

(Coautoria: Airton Perrone)

Tanta gente, tanta opinião.
Tanta liberdade, tanta escravidão.
Em meio a toda essa confusão,
a rósea flor disso que sou
faz uma oração,
pé-de-poesia
e aspira pela verdade
muito além da razão.

Sou o que está acima.
Sou o que está abaixo.

Amor, em cada respiração.

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ÀS VEZES

São tantos ouvidos, que a palavra se esconde.
São tantos ruídos, que a mente embaralha.
Na calada da noite um grito de poesia eclode
e deixa fluir
o amor cintilante de dentro do murmúrio da fonte.

Às vezes dói tanto, que só resta ser forte.
São tantas grades, guerras, gaiolas,
são tantas palavras jogadas displicentemente
ao léu,
como se não houvesse energia no invisível da voz.

Às vezes dói tanto, que só resta o amor.
No escuro molhado que sobra do dia
traço novas esperanças,
sonho perspectivas e compassos e danças.

Às vezes é tanto, que só resta a poesia.

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DE BELEZA EMBEBIDA

… a poesia da vida,
às vezes ardida,
pelos amantes cantada
em feéricas vozes
de compartilhada alegria.

… a poesia da vida,
luz resplandecida,
aos ventos espraiada
em nuvens fugazes
de fluidez desvairada.

… a poesia da vida,
tantas vezes escondida,
aos atentos revelada
em pequenas doses
de beleza embebida.

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DUST IN THE WIND

Fugaz é o sonho!
Fugaz é esse sopro que vivemos
entre o primeiro respiro da vida
e o último suspiro da morte.

Fugaz como a fumaça que se evola.
Fugaz como a poeira no vento.

E no entanto é cheio de atos
este breve espaço que abrimos no tempo.
Tudo a cada instante virando história, lenda,
memória, roteiro, cicatriz, poema.

E aqui estou para dizer-te, amigo:
sim, há injustiças, incompreensão,
desmedidas, descompassos, diferenças.
Há pontes e abismos. Há alma e há lavas.
Há isso que ao nos tocar nos expande:
um assovio-calafrio que dá no corpo – a vida.

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PERMITIR-ME

Quero limpar meu verbo
de todo o excesso de vaidade.

Quero encher minha voz
com a potência da liberdade.

Rimar se for preciso,
permitir-me não agradar.

Experimentar, errar, acertar.
Gerundiar e pairar no ar.

Na fluidez do exercício diário,
amor, ser a humilde flor.

Enquanto eles assistem futebol e falam pelo cotovelos
eu bebo palavras, cheias de vento, à luz do luar.

Entre um e outro verso,
paixão, sigo a pureza da intuição.

Quem poderá dizer que é em vão
que brilha a flor do meu coração?

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DA SACADA DO MOMENTO

O sol já se aproxima do horizonte.
Os pequenos barcos que compõem o entardecer
são geometrias da beleza que fisgam meu olhar.

Nas bananeiras as folhas resplandecem, douradas.
E o que, na paisagem, antes eram ricas cores
agora escurece em contraluz.

No fundo, no raso, e no meio de tudo
paira o éter da poesia,
perfumado pelo trinado dos pássaros.

Hoje sonhei que era uma simples operária,
carregava tijolos, movia madeiras,
construía o chi com a respiração.

Entre uma e outra tábua parava para ver a paisagem
e, subitamente, caía em devaneios profundos,
depois acordava e o trabalho continuava.

Hoje sonhei que tocava violão clássico
nas salas de grandes sábios alquimistas,
depois tocava flauta e então poemas eu recitava.

Hoje sonhei com a Terra Pura,
vi a beleza de cada brick on the wall,
tive um instante de paz, senti o amor que vem a mim.

Hoje dormi com a mão no coração,
tentando acalmá-lo de tanta existência.
Dormi, acordei, sonhei, vivi, escrevi.

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RENDEIRA

Maria acorda cedo,
molha a alma na lagoa,
depois senta perto das dunas
e põe-se a rendar:
fio daqui, fio de lá.

Sua vida é uma rajada de vento
que varre os fios da tristeza.

E dia-a-dia o que vemos
são mais rendas sobre as mesas.
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A ESSÊNCIA MANIFESTADA

A cada dia adquirimos um novo elemento
seja tempero, seja imagem, seja ideia.

Cada elemento adquirido é guardado
na sacola, na caixa ou na memória.

Assim vamos costurando com retalhos
o manto que, frente ao mundo, vestimos.

Cada escolha é um pano
que na alma tatuamos.

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A EXISTÊNCIA

Sou pipoca,
abobrinha, açaí, camomila.
Sou meus olhos, meus ouvidos,
sou os peixes da lagoa,
o céu,
o carnaval que vi no sonho.
Sou a música de Bach
e a de Caetano.

Sou estar aqui e não lá.

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ALECRIM

Sim alecrim!
Tu resplandeces assim!
Cresces ramo após ramo,
alecrim ano após ano.
Tua fragrância alecrim,
é alegria alecrim!
Tua essência alecrim,
é que cria alecrim!
Teu chá alecrim,
é que ria pra mim!
Rimos nas rimas dos ramos,
sim alecrim, pura alegria,
alecrim!


ALUMBRAMENTO

Sou, sol, soul.

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POEMA DE PRIMAVERA

Vão-se as estações.
No jardim um diálogo.
Inços, ervas, aranhas.
Primaveril fluir incessante.
Um pulsar em minhas veias.

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SHANTI

A paz mora onde, seu moço?
No templo dos adereços ou na vastidão do silêncio?
Mora no centro do peito ou na projeção do vai dentro?

Poderia a paz morar no trabalho alegre e contínuo de um operário?
Ou então nas mãos suaves de uma bailarina?
Poderia a paz ser uma dança, um jogo, uma esperança?

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 À REVELIA

Crio a paz às duas e vinte e cinco.
Sopro no vento a intenção da poesia.
Inspiro, me estico, expiro.
Sou árvore, pássaro, poesia.
Lá fora mil gritos de socorro,
lá fora mil banquetes à minha espera.
Crio a paz às duas e vinte e sete.
Sou no vento a intenção da leveza.
Inspiro, não me mexo, expiro.
Sinto o pesar em cada veia,
o pulsar da gravidade,
a força dos desejos.
Inspiro, expiro, medito.
Crio a paz à revelia.

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ZOOM OUT

Zoom out, zoom out, zoom out,
abro o espaço de minha mente.

Entre luzes, descubro:

ter os pés no chão
é tão elevado quanto voar.

Ficar
é tão heroico quanto partir.

Misturo lucidez e ludicidade.
Esvazio-me de mim e fico cheia.

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 ARCANO x

Gira-gira, roda da vida,
roda-roda, roda gigante,
zig-zum, bate-bate coração.

Respira o centro,
atravessa a ventania.

Gira-gira,
roda-roda.
Zig-zum,
bate-bate.

Respira e om.

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EVOÉ

Quase finda a primavera,
agora o sol encontra o seu ápice.
Tudo dança, tudo rodopia.
Borbulha a imensidão no espiralar da vida.
Escuto o som de um alçar voo.

Nisso que é vertigem e miração,
entrega e aceitação,
viro-me com o que tenho:

– três punhados de silêncio,
– três malas de orações,
– uns respingos de poesia.

Evoé! Voemos!


E SE…

E se, ao invés de ir para fora, eu mergulhar para dentro?
E se, ao invés de olhar as notícias, eu cantar às estrelas?
E se, ao invés de procurar o outro, eu encontrar a mim mesma?

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 O TEMPO É A MÚSICA DO ESPAÇO

Palavras postadas em bits
entrelaçam versos sem fim.
Termino um projeto, começo outro.
Em múltiplas linhas me traço.
Teço um poema, teclo num chat.
O tempo é a música do espaço!

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